Princípios

A abordagem complexa dos saberes locais, isto é, das compreensões e práticas distintas sobre o mundo natural , emerge do contexto de crise paradigmática da ciência moderna e da necessidade de abertura ao diálogo com outros saberes. Incluímos nessa categoria o patrimônio material e imaterial de coletividades que, desde seus territórios, buscam resistir e reafirmar suas identidades frente à modernização e racionalização de suas realidades . Parte-se, portanto, da necessidade de abertura ao diálogo com outros saberes; a abordagem complexa, nesses termos, deve possibilitar a compreensão do saberes locais sobre o mundo natural apoiando-se em na união de métodos e técnicas oriundos de outros ramos científicos (da psicologia, da antropologia, da sociologia, da linguística, da ecologia, da geografia, etc.) de forma a permitir a interpretação das narrativas (da ciência e dos sabres locais) acerca da subjetividades dos fenômenos espacial (o território da comunidade) e temporal (o tempo social e biológico) que configuram a sociobiodiversidade de territórios tradicionais e alternativos.

segunda-feira, 8 de julho de 2019

Interconexões apoia a Celebração da Vida da Agricultura Familiar

O Grupo de Pesquisa e Extensão Inteconexões apoia a 11a  edição do evento CELEBRAÇÃO DA VIDA DA AGRICULTURA FAMILIAR que será realizado no dia 27 de julho de 2019  no CETA - Centro de Estudos e Treinamento em Agroecologia, Comunidade Sete Saltos de Cima, Itaiacoca, Ponta Grossa PR. A programação do Evento pode ser conferida abaixo.


sexta-feira, 28 de junho de 2019

INTERCONEXÕES participa da Primeira Reunião do BLOCO DA AGRICULTURA FAMILIAR da ALEP

A Casa Latino Americana(CASLA) e o Grupo INTERCONEXÕES – Grupo de Pesquisa e Extensão Universitária-UEPG, representada pela Doutoranda em Geografia do PPGEO-UEPG, Cleusi T. Bobato Stadler se fez presente no dia 12/06/2019, das 09h às 13h, na Assembléia Legislativa do Paraná (ALEP), onde foi realizada a Primeira Reunião do Bloco da Agricultura Familiar, convocada e coordenada pela Deputada Estadual Luciana Rafagnin (PT). 
O evento contou com a presença de representantes do Governo, de inúmeras entidades ligadas à área, além de parlamentares que expuseram e discutiram questões regionais que afetam a agricultura familiar no Paraná. 



Foto: Cleusi T. Bobato Stadler/ALEP/PR.

O principal objetivo desta Reunião segundo a Deputada Luciana Rafagnin é ouvir as organizações públicas e buscar soluções que minimizem as desigualdades fortalecendo o conjunto da agricultura familiar paranaense. 
diretor da Secretaria de Estado da Agricultura e Abastecimento (SEAB) Richardson de Souza, que representou o secretário Norberto Ortigara, falou sobre a fusão do Instituto Paranaense de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater), do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), da Companhia de Desenvolvimento Agropecuário do Paraná (Codapar) e do Centro Paranaense de Referência em Agroecologia (CPRA) que deve dar origem ao Instituto Paranaense de Desenvolvimento Rural, focado no fortalecimento da pesquisa e da assistência técnica. Ele destacou que novos programas estão sendo desenvolvidos, apoio à agroindústria familiar, fiscalização dos produtos, programas tradicionais, entre eles o de segurança alimentar, cozinha comunitária, recuperação de estradas rurais.
consultor do Bloco, ex-secretário estadual da Agricultura e do Abastecimento, ex-secretário nacional da Agricultura familiar e coordenador de projetos da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO)/Região Sul, Dr. Valter Bianchini, apresentou um quadro da situação atual do setor, lembrando que o Paraná, tem 2,3% do território nacional e é responsável por 18% de toda produção de grãos do país, ocupando posições de destaque em relação à soja, feijão, trigo, frango, suínos, e leite e que essas atividades são sustentadas majoritariamente por agricultores familiares.
Entre algumas das Entidades Públicas e Governamentais que foram representadas na ALEP, estão o MDA ( Ministério do Desenvolvimento Agrário), Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), Secretaria da Agricultura, EMATER, Casa da Agricultura Familiar, UTFPR, Associação para o Desenvolvimento da Agroecologia (AOPA), FETAEP (Federação dos Trabalhadores Rurais e Agricultores Familiares do PR)ReSa (Rede Sementes da Agroecologia), Terra de DIREITOS, a CASLA (Casa Latino Americana), o INTERCONEXÕES (Grupo de Pesquisa e Extensão-UEPG), famílias atingidos por barragens, entre outros, a fim de discutirem e proporem ações na melhoria da Agricultura Familiar no Paraná.

A Doutoranda Cleusi T. Bobato Stadler em nome da CASLA e do INTERCONEXÕES, destacou os Projetos de Base Agroecológicos que estão sendo desenvolvidos nas Comunidades de Sete Saltos (Ponta Grossa/PR) e Quilombola Palmital dos Pretos (Campo Largo/PR), com o plantio de árvores nativas e sementes crioulas nas entrelinhas. Esse Projeto engloba o Banco de Sementes Crioulas das Comunidades, que ficará nessas comunidades e o Selo Faxinalense criado para melhorar a comercialização dos produtos agroecológicos das mesmas. Também destacou que a CASLA está promovendo uma Feira de Sementes na sua sede em Curitiba e gostaria de apoio e parcerias com entidades governamentais.  Mas uma de suas maiores reivindicações atuais, no tocante aos projetos comunitários rurais, é a melhoria das estradas e transportes para as vendas dos produtos dos Sistemas de Agroflorestas destas Comunidades Tradicionais, bem como, a Regularização e Certificação das Terras da Comunidade Quilombola Palmital dos Pretos. 

A Doutoranda explicou que já existem projetos de Pesquisa e Extensão entre as Comunidades Tradicionais e a Universidade, mas que é preciso ter mais projetos referentes à “Educação Agroecológica” nas escolas destas comunidades numa interação entre alunos, professores e pessoas das comunidades, para alcançar melhorias na formação de seus Bancos de Sementes Crioulas e no plantio e reprodução das mesmas. Ao final de sua fala na ALEP, Cleusi convidou para a Feira de Sementes e o PRÉ-CEPIAL 2019, a ser realizado nos dias 16 e 17 de agosto, na sede do Município de Rebouças/Pr. 



Foto: Cleusi T. Bobato Stadler/ ALEP/PR


Entre as principais demandas apontadas pelas organizações presentes na Reunião para serem priorizadas na agenda legislativa dos parlamentares ou pelos organismos do Executivo estadual, estão a valorização da agroecologia, do cultivo e multiplicação de sementes crioulas, da diversificação das lavouras, da educação do campo, políticas de fortalecimento das agroindústrias e cooperativas de produção, da inserção das mulheres e dos jovens, bem como a atenção aos perigos relacionados ao uso abusivo dos agrotóxicos nas lavouras do estado e a necessidade de se impor limites à pulverização aérea desses venenos agrícolas. As organizações destacaram também a necessidade de colocar em prática o programa da alimentação escolar 100% orgânica, da criação de um programa de aquisição de alimentos da agricultura familiar, a exemplo da política nacional implementada em governos passados, da política de segurança alimentar e nutricional, da garantia de uma política estadual sobre os direitos das famílias atingidas por barragens, da busca de solução para os conflitos fundiários, entre outras.





Foto: Cleusi T. B. Stadler. Membros participantes da Reunião na ALEP/PR.


sexta-feira, 7 de junho de 2019

Atividade Extensionista na Serra do Apon celebra a diversidade e a história de resistência Quilombola na região


No dia 03 de junho de 2019, as professoras do curso de Pedagogia da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), Dra. Lucia Mara de Lima Padilha, Dr.ª Nelba Maria Teixeira Pisacco e a doutoranda Nilvan Laurindo Souza, promoveram a  4ª Edição do Curso de extensão: "Relações Étnico-Raciais: possibilidades pedagógicas para o cumprimento da lei 10.639/03".  

A atividade extensionista pedagógica, vinculada ao Programa de Extensão e Pesquisa em Processos de Aprendizagem - PROA, financiado pelo Programa Universidade Sem Fronteiras, que tem como uma de suas premissas a inclusão educacional e social, de maneira e valorizar a identidade afrobrasileira e rememorar a história de resistência da Comunidade Remanescente de Quilombolas da Serra do Apon, localizada no município paranaense de Castro.


Com cerca de 45 alunos entusiastas da proposta extensionista, um ônibus cedido pela Secretaria Municipal de Educação da Prefeitura de Castro garantiu a viagem do grupo até a Comunidade da Serra do Rio Apon, levando em torno de 1h30 desde a sede do Município de Castro.



Juntamente com a equipe de extensão da Pedagogia, estavam presentes os representantes Grupo de Pesquisa e Extensão Interconexões (UEPG), integrante da Rede CASLA-CEPIAL, o professor Nicolas Floriani e a doutoranda Cleusi Stadler Bobato, e a equipe da Secretaria de Educação de Castro, a Secretária de educação Profa Rejane de Paula Nocera e a coordenadora pedagógica das Escolas do Campo, Luiza Nunes, ambas equipes parceiras de projetos comunitários. 

Tais parcerias extensionistas vêm ao encontro do Projeto de Extensão Universitária da Casa Latino-americana e da Rede CASLA-CEPIAL intitulado  "Unitinerante: Universidade dos Direitos Humanos, da Natureza, pela Paz e o Bem Viver", cujo objetivo é "objetivo geral promover o diálogo entre atores sociais (Academia, Organizações e Movimentos Sociais e Setores do Poder Público) a fim de deliberar e aprovar conjuntamente ações extensionistas estratégicas, priorizando-se projetos com atuação em grupos sociais em situação de vulnerabilidade social e ambiental. "


UMA ATIVIDADE PEDAGÓGICA PARTICIPATIVA: EMPODERANDO OS OS ATORES COMUNITÁRIOS

Profa. Lucia: O curso de extensão visou a formação inicial com acadêmicos (as) dos cursos de Licenciatura em Pedagogia e Licenciatura em Geografia da Universidade Estadual de Ponta Grossa. Os participantes tiveram a oportunidade de refletir sobre a desigualdade social do negro como um processo histórico de legitimação ideológica do racismo em nossa sociedade; Identificar as políticas educacionais que visam promover a igualdade racial nas escolas; Compreender historicamente as contribuições africanas e negras no Brasil; Conhecer a história e a importância das Comunidades Quilombolas no Paraná; elaborar e executar ações de cunho pedagógico que visem combater o preconceito e contribuir para a valorização da identidade da criança negra. 







As propostas pedagógicas foram desenvolvidas com a Comunidade Quilombola da Serra do Apon e com os (as) alunos (as) da Escola Municipal do Campo Professor Benedito Roque de Campos Leal – Serra do Apon - Socavão Castro/PR.





A atividade extensionista propiciou a aproximação dos (as) acadêmicos (as) dos cursos de licenciatura com o temática em questão, visando atender as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira, contidos no Parecer 003/2004 elaborados pelo CNE, que regulamenta a alteração trazida pela Lei 10639/2003 à Lei 9394/1996, nos artigos 26, 26A e 79B, bem como as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Escolar Quilombola, contidas no parecer do CNE/CEB nº 16/2012, aprovado em 5 de junho de 2012. 






O papel das universidades é definido na Resolução nº 1, de 17 de junho de 2004, CNE/CP (Brasil, 2004) que diz em seu Art. 1º, § 1º: “As Instituições de Ensino Superior incluirão nos conteúdos de disciplinas e atividades curriculares dos cursos que ministram a Educação das Relações Étnico-Raciais, bem como o tratamento de questões e temáticas que dizem respeito aos afrodescendentes, nos termos explicitados no Parecer CNE/CP 3/2004”. Neste sentido, em consonância com a missão da UEPG e tendo em vista suas políticas de inclusão social, esta atividade extensionista se insere nas políticas públicas afirmativas que objetivam a superação das desigualdades sociais e o cumprimento da legislação vigente no âmbito escolar.





O projeto “ Minha História começa aqui, e pelo mundo eu vou”, é realizado na Escola Municipal do Campo Professor Benedito Roque de Campos Leal, na localidade de Serra do Apon, Castro/PR, pelas professoras Silmara e Jozana Carneiro e a participação da professora Mara Suelem. O projeto realizado pelas professoras tem por objetivo valorizar e resgatar a tradição e a cultura negra por meio de ações que contemplem a participação efetiva da comunidade, alunos e pais de alunos em parceria com a Escola.








 A atividade desenvolvida na escola resultou em uma Mostra Cultural Quilombola, o artesanato realizado pelas famílias, estimulou o espírito cooperativo das famílias em prol do melhor desenvolvimento dos alunos. A representação teatral, feita pelas crianças, e, apresentada para os (as) acadêmicos da UEPG, traduziu de forma peculiar a conscientização negra, onde os protagonistas eram bonecos negros que viviam uma trama baseada no preconceito e discriminação sofrido por um boneco pelo fato de ser negro.






REVISITANDO A MEMÓRIA DA REGIÃO: DE ESCRAVOS FUGIDOS À VISIBILIZAÇÃO DOS SUJEITOS HISTÒRICOS


Prof. Nicolas: Em parceria com as professoras extensionistas da Pedagogia, os integrantes do Interconexões, professor Nicolas Floriani do Departamento de Geociência e a doutoranda do Programa de Pós-graduação em Geografia, Cleusi Bobato, tiveram a oportunidade de realizar entrevistas com lideranças comunitárias da Serra do Apon. Entre elas, destacaram-se os depoimentos de Dona Vanir Maciel Rodrigues, quilombola de 76 anos e do Sr. Pedro Rodrigues Silva, com seus surpreendentes 100 anos de história. 



Equipes de Pesquisa Extensão Interconexões e da Secretaria de Educação de Castro pousando em fotografia juntamnte com Dona Vanir, ao lado direito do fogão à lenha de sua cozinha.

Dona Vanir, liderança quilombola relatou seus duros anos de repressão, violência e discriminação sofridos pela comunidade, quando aos seus nove anos de idade, ela e seus familiares foram sequestrados por paramilitares a mando de fazendeiros, encarregados de assassinar seu pai. A luta pela terra também foi rememorada por Seu Pedro, que lucidamente relatava os episódios de violência contra as famílias de agricultores negros. 

Personagens como o “fazendeiro Salgado” e o governador “Manuel Ribas” aparecem nesses episódios relatados do recém criado estado do Paraná. O citado fazendeiro figura como autor de crimes de grilarem, ameaças e violência física praticados por jagunços de fazendas (antigas sesmarias) do Sertão paranaense contra contra homens, mulheres e crianças dessas comunidades, entre as décadas de 1950 e 60.

O ex-governador, interventor do estado nomeado por Getúlio Vargas, filho de brigadeiro do Exército, figura como construtor da Estrada do Cerne, obra que iria cortar inúmeros territórios faxinalenses e quilombolas da Região. É nesse contexto de um regime político autoritário de intervenção federal no recém criado Estado do Paraná onde vigorava uma prática institucionalizada de grilarem de terras de posseiros em públicas devolutas do Estado, que Seu Pedro testemunha sua vida de trabalho no campo como empregado da fazenda de 260 alqueires de “Manuel Ribas”, onde criava-se gado para vendê-lo na sede de Castro. 

Outro episódio de suma importância, a revolta dos escravos da Fazenda Capão Alto, em Castro, é recriado por Dona Vanir, quando incentivada a falar sobre a origem do território quilombola: nos relata a senhora quilombola que seu bisavô chegara à localidade atual juntamente com outras famílias negras perseguidas. As condição nas quais chegaram e sobreviveram os escravos revoltos perderam-se, contudo, na memória dos antepassados.


Pouco conhecida no Paraná, a revolta dos escravos da grande fazenda do Capão Alto denuncia a forma de instituição de latifúndios no Brasil e América Latina colonial. Antiga Sesmaria da Paragem do Rio Iapó, repassada por coronéis português à irmandade Carmelita pra exploração de gado e erva-mate, os escravos - de origem indígena, no início do regime administrativo da sesmaria -  organizaram um movimento contrário à venda da fazenda a um empresário da paulista, então capital da província paranaense. Diante da venda iminente, muitos escravos queimaram, por volta de 1864, as senzalas, fugindo e adentrando-se nas matas do grande latifúndio de Castro; outros grupos esconderam-se nas matas de Itaiacoca, município vizinho de Ponta Grossa, outros grupos no município de Palmeira. 

Talvez aí resida uma explicação para a violenta e contínua reação das oligarquias locais à revolta dos escravos e de camponeses caboclos (as revoltas do Contestado e do Porecatu, por exemplo) que se apossaram de terras incrustadas na imensidão do Sertão do Paraná tradicional, e onde se inseriram parcialmente na sociedade agrária das pequenas comunidades (bairros rurais) agregadas aos latifúndios, mas por muitos anos permanecendo em silêncio.

Atualmente, a comunidade negra da Serra do Apon, embora reconhecida pelo Estado como Comunidade Remanescente de Quilombolas, encontra-se exprimida em meio à propriedades que antes pertenciam a seu território original. 

As memórias de Seu Pedro e Dona Vanir, nos remetem a uma temporalidade que se entrecruza com a fase da modernização desse espaço rural, a partir dos anos de 1980. Mesmo assim, algumas das antigas práticas produtivas como a roça de toco e a criação de porcos, as capelas e as festividades - organizadas antigamente para celebrar os puxirões - ainda são reproduzidas. 


Nesta imagem é possivel ver Seu Pedro Rodrigues, sentado ao lado de sua Cunhada e afilhadas. Junto à elas está a doutoranda Cleusi Bobato. Na mesa, estão dsipostas sementes crioulas de milho e feijão doadas ao Interconexões pela cunhada de Seu Pedro.

Herança da formação socioespacial do Paraná Tradicional, a cultura camponesa quilombola e faxinalense nos remete à fase de transição do período Monárquico para o início da República, onde a região era comandada  por antigas práticas de coronelismo clientelista e escravagista, (e, pasmem, ainda permanece estas práticas) que explorava camponeses caboclos posseiros e subjugava e reprimia violentamente os territórios negros e indígenas. 

Vista da entrada da Comunidade Remanescente de Quilombolas da Serra do Apon, município paranaense de Castro.

Contudo,  a partir da redemocratização da sociedade brasileira, marcada pela instauração da constituição de 1988 e, mais recentemente a partir dos anos 2000, quando diversos atores sociais, incluindo a Universidade Pública,  passaram a atuar na garantia das políticas pública de reconhecimento dos direitos socioterritoriais, endossadas por governos populares estadual e federal, essas vozes se fizeram ouvir cada vez mais fortes e presentes. 


Reconhecida, no início dos anos de 2000, por meio de lei Estadual e Federal  como comunidade remanescente de quilombolas, a comunidade negra vê-se exprimida em pequena área do que era antigamente um território maior. Os moradores não possuem mais que um hectare de terra por família, sendo obrigados a trabalharem em fazendas, mineradoras ou na cidade de Castro.

A disposição das casas de madeira no sentido de um semi-quadrado fechado, pode ser interpretada como uma testemunha da forma de defesa dos moradores quilombolas, adquirida com o passar dos anos frente aos atos de violência cometidos por jagunços nas décadas de 1950 e 1960.

No entanto, os retrocessos promovidos pelo governo federal atual, à garantia dos direitos dessas populações rurais, impuseram uma agenda autoritária de supressão das históricas conquistas sociais. Os interesses da rancorosa oligarquia agrária, apoiada por grupos evangélicos fundamentalistas, milicianos e grandes empresários fraudadores dos cofres do Estado -ademais de instituições norte-americanas de direita responsáveis por apoiar financeiramente a criação de canais midiáticos golpistas nos Estados Unidos durante o governo popular de Dilma Roussef)- têm traçado uma cruzada fascista aos movimentos sociais e as camadas populares da sociedade: o desrespeito à diversidade cultural, religiosa e de gênero, a imposição de uma economia de mercado liberal neoextrativista, a precarização dos direitos trabalhistas, o sucateamento de universidades e a venda de sólidas empresas estatais, somam-se a prática mais enraizada da oligarquia agrária pseudo-urbanizada brasileira: a grilarem institucionalizada de territórios ancestrais indígenas e quilombolas reconhecidos na constituição de 88 e por leis estaduais e ratificados em acordos internacionais. 



Não obstante a violação desses direitos socioterritoriais, ações includentes e solidárias como a  extensão universitária buscam defender essas conqueistas sociais históricas e também traçar vias alternativas ao desenvolvimento local dessas regiões em situação de vulnerabilidade social, buscando por meio de novos arranjos locais (prefeituras, ONGs, Ministério Público, entre outros) dar voz e voto às populações subalternas e inviabilizadas.

quarta-feira, 3 de abril de 2019

RESUMO DO II° ENCONTRO ACADÊMICO-COMUNITÁRIO DA UNITINERANTE: "SABERES GEOCOLÓGICOS TRADICIONAIS E DIVERSIDADE SOCIOTERRITORIAL"

II° ENCONTRO ACADÊMICO-COMUNITÁRIO DA UNITINERANTE: "SABERES GEOCOLÓGICOS TRADICIONAIS E DIVERSIDADE SOCIOTERRITORIAL"





O II Encontro Acadêmico-comunitário da Unitinerante[1] e XI Encontro Temático da Rede CASLA-CEPIAL[2] que ocorreu do dia 17 a 26 de agosto de 2018, teve como eixo-disciplinar[3] proposto pelo Programa de Pós-Graduação em Geografia-UEPG os "Saberes Geoecológicos Tradicionais e Diversidade Socioterritorial". Em nove dias discentes (Graduação e Pós-Graduação), docentes e comunitários percorreram três municípios paranaenses, dois deles localizados no centro-leste na região dos Campos Gerais, sendo Ponta Grossa e Campo Largo, e, no litoral, Pontal do Paraná. Estes contemplaram o itinerário do evento por conter em suas áreas rurais comunidades tradicionais, respectivamente, Faxinal (Sete Saltos de Baixo), Quilombo (Palmital dos Pretos) e Caiçara (Guaraguaçu).

Tais grupos étnicos são recorte espacial do projeto de pesquisa “Territorialidades Tradicionais às Territorializações da Agroecologia: Saberes, Práticas e Políticas de Natureza em Comunidades Rurais Tradicionais do Paraná (Chamada Universal MCTI/CNPq nº 01/2016) e do projeto de extensão “Selo Socioambiental Produtos da Agrofloresta Faxinalense: Capacitação Sociotécnica e Empoderamento Jurídico para a Inclusão Social e Geração de Renda de Populações Tradicionais do Paraná” (SETI-PR/2018).  

Tanto o projeto de pesquisa, quanto o de extensão são coordenados pelo Prof. Dr. Nicolas Floriani do Programa de Pós-Graduação em Geografia-UEPG, efetivado pelo Grupo de pesquisa – “Interconexões/UEPG”, tendo ainda como integrantes: Tanize Tomasi Alves (Pós-doutoranda), Antônio Márcio Haliski (Pós-doutorando), Cleusi Teresinha Bobato Stadler (Doutoranda), Renato Pereira (Doutorando), Vanderlei Marinheski (Doutorando) e Brenda Olinek (Graduanda em Biologia). E dentro do projeto de extensão a técnica Ronir Fátima Rodrigues. 

De forma alternativa, e, até desafiadora aos padrões acadêmicos, pela segunda vez ofertou-se a disciplina-evento nas comunidades, com a prerrogativa de nesta edição ter sido acrescido as três diferentes realidades. Uma parceria firmada pela UEPG, através do docente do departamento de Geociências, Prof. Dr. Nicolas, com a Casla-Rede-Cepial. A inserção à campo possibilitou a integração dos discentes e docentes ao ambiente cotidiano dos sujeitos das pesquisas e atividades extensionistas. Além de facilitar a participação dos sujeitos locais, e, mais do que isso ter o protagonismo dos mesmos durante o evento em que foram temática. Portanto, a programação do evento foi estruturada de forma que contemplasse as discussões acadêmico-teóricas e problemáticas/demandas comunitárias. Assim como a inclusão de atividades e práticas culturais contemplativas e valorativas dos saberes tradicionais.

Com a metodologia da observação-participante (GOFFMAN, 2012)[4], em que os pesquisadores adequam-se à captura das informações conforme o seu olhar, interagindo através do contato face a face no momento da realização das atividades, tem-se o aprofundamento e a aproximação dos sujeitos pesquisadores e estudantes com os sujeitos de suas pesquisas e estudos. Uma interação potencial ao diálogo mais eficaz e direcionado às problemáticas locais, uma vez que os sujeitos que de fato vivenciam as realidades podem expor outras perspectivas e argumentos sobre as mesmas.

Também adota-se conforme Pereira (2018) o procedimento metodológico da pesquisa-ação. Esta de acordo com Thiollent (1985, p. 14)[5] é:

[...] Um tipo de pesquisa social que é concebida e realizada em estreita associação com uma ação ou com a resolução de um problema coletivo e no qual os pesquisadores e os participantes representativos da situação da realidade a ser investigada estão envolvidos de modo cooperativo e participativo.

Coloca-se esta metodologia, pois as práticas e atividades dos projetos de pesquisa e extensão que perpassaram o evento, visam mais do que o levantamento de informações, mas a reestruturação e melhoramento dos sistemas produtivos; valorização da produção; organização e ampliação da comercialização dos excedentes. Durante o evento algumas práticas foram direcionadas para estes fins.

Para Pereira (2018) tanto a justificativa do projeto, quanto à abordagem agroecológica a partir dos sujeitos das comunidades tradicionais no evento, encontra ressonância em Altieri (1998)[6], quando ressalta que o enfoque da agroecologia deve ser ao agricultor que possui menor acesso aos insumos tecnológicos e poucas relações com o mercado, como uma estratégia para o desenvolvimento rural sustentável.

Este relatório constituiu-se por trechos dos relatórios de campo dos alunos do Programa de Pós-Graduação em Geografia-UEPG[7], Fábio Martins, Cleusi Bobato Stadler e Renato Pereira, que experenciaram a prática de campo, nestes ambientes distintos.

A seguir Stadler (2018) nos expõem que a abertura do evento no Faxinal de Sete Saltos de Baixo, no dia 18 de agosto de 2018, com a ressalva de um percentual baixo de participantes acadêmico-comunitário inferiu na alternância da metodologia das “oficinas participativas” – moradores das comunidades, discentes e docentes –, com a inclusão da fala expositiva-ilustrativa.

Na exposição teórico-prática teve-se no Faxinal Sete Saltos de Baixo a abordagem de três temáticas: “Etnopedologia e Manejo da Fertilidade dos Solos (Vanderlei Marinheski – Doutorado/UEPG)”, “Agrobiodiversidade – “Sementes Crioulas” e Práticas Culturais dos Faxinalenses e Quilombolas (Cleusi Bobato Stadler-Doutorado/UEPG)” – destaca-se a exposição do banco de sementes[8] -, e Agrobiodiversidade e Sistema Agroflorestal (Margit Hauer-IAP)” (Fotos 01 e 02). Também fez-se uma exposição de fotos dos sujeitos da pesquisa, registros estes realizados por uma das integrantes do Grupo Interconexões-UEPG durante os trabalhos de imersão à campo (TOMASI, 2018). E uma apresentação sobre o projeto do selo faxinalense, com destaque para alguns resultados e homenagem póstuma a um líder faxinalense de uma comunidade vizinha (GONÇALVES, 2018).





Fotos 01 e 02 – Oficinas Teórico-práticas na Comunidade Faxinalense Sete Saltos de Baixo-Ponta Grossa/PR
Fonte: Stadler, 2018.


Todavia, segundo Stadler (2018) destaca-se durante as Oficinas as práticas culturais. Em uma delas a faxinalense Srª Jesuvina Chagas Ferreira, de 69 anos, moradora do local há mais de 25 anos, demonstra a tradição de socar a erva-mate no pilão, uma atividade que realiza todos os anos em sua propriedade (Foto 03). Ela corta a erva-mate, seca no forno de barro e soca no pilão, de modo artesanal e tradicional. E a prática da “Paçoca de carne” no pilão, apresentada pela família Chagas, onde se coloca a carne de porco salgada junto a farinha de milho e vai socando até formar a paçoca (Foto 04).







Fotos 03 e 04 – Práticas tradicionais executadas por faxinalenses na Comunidade Sete Saltos de Baixo – Ponta Grossa/PR
Fonte: Stadler, 2018.

Stadler (2018) evidencia a exposição de produtos faxinalenses para comercialização com os participantes do evento. Destaca-se entre a produção: a erva-mate, o mel e artesanatos de taquara e fibras. Apresentações artísticas musicais com sanfona, violão e sino foram realizadas pelos faxinalenses e quilombolas.



Foto – Apresentações Artísticas na Comunidade Sete Saltos de Baixo. Ponta Grossa/PR

Fonte: Floriani, 2018.

De acordo com Pereira (2018) no segundo dia de evento, 19 de agosto de 2018, vivenciou-se a atividade de visita à propriedade familiar agrícola dos Marques – localizada na comunidade rural de Sete Saltos de Cima (Ponta Grossa-PR) –, o almoço comunitário e a etnocaminhada na Comunidade Quilombola Palmital dos Pretos.

Na primeira atividade, observa-se os resultados dos primeiros anos de transposição de uma agricultura convencional para os moldes teórico-práticos da agroecologia. Teve-se in loco a fala e demonstração de alguns termos e técnicas de manejo do sistema produtivo agroecológico pelo estudante de Tecnologia em Agroecologia do IFPR, Leandro Miguel Schepiura. Nesta ocasião além da caminhada pelo agroecossistema, identifica-se a agrobiodiversidade existente, diante do histórico da mesma e o pouco tempo de inserção às novas práticas agrícolas. Também pode-se acompanhar a poda de bananeira, observar a troca de sementes crioulas entre os sujeitos comunitários e a coleta de exemplares por integrante do Grupo Interconexões-UEPG para o banco de sementes do projeto.

Já na Comunidade Quilombola Palmital dos Pretos, a partir do meio dia, conforme Pereira (2018) realizou-se o almoço comunitário, ofertado pelos quilombolas com produtos locais, como o arroz, o feijão e o frango caipira. Após o término deste, efetivou-se a etnocaminhada, caminhada guiada pelo quilombola Sr. Alceu Carneiro, cujas práticas e atividades diárias demandam muito conhecimento da mata, demonstrada nesta ocasião. Escolheu-se a mata próxima a estrada principal, onde todo o grupo pode adentrar e ter contato com os saberes vernaculares deste sujeito quilombola. Ele identificou espécies vegetais, seu uso doméstico e medicinal, como por exemplo o Cipó-mil-homens. Nesta ocasião observou-se ainda os remanescentes dos antigos caminhos presentes na mata.

Na comunidade quilombola a programação possibilitou a visita à propriedade do líder, Arildo Moraes de Portela, cuja implantação iniciou-se neste ano, alguns meses antes das primeiras atividades do Grupo de Pesquisa, desta forma acompanha-se a construção das benfeitorias e do sistema produtivo. Este mescla técnicas vinculadas aos saberes tradicionais e agroecológicos, visto que, adquiriu conhecimentos teóricos cursando um período do curso de Tecnologia em Agroecologia pelo IFPR. Na Comunidade adquiriu-se sementes crioulas e de adubo verde.

Do dia 21 a 23 de agosto de 2018, o evento seguiu com programação em Curitiba, na Casla, destacando então, a proposta da Unitinerante, e assim fez-se a presença dos sujeitos destas comunidades neste ambiente, além de lideranças de outros grupos étnicos. E também a participação de Pró-reitores de Universidades públicas, Secretário de Ciência e Tecnologia e Fundação Araucária do Paraná, Ministério Público do Paraná, Defensoria Pública Federal, Núcleo especializado da Infância e Juventude, Instituto Ambiental do Paraná, organizações e movimentos sociais.

Durante estes três dias segundo Stadler (2018) debateu-se os seguintes temas: Jornada Direitos Humanos e Migrações; Jornada Direitos Humanos; Violência e Situação Prisional: desafios para o Brasil e Argentina; Organizações Comunitárias: experiências de diálogo com poder público e academia; Saberes Geoecológicos Locais e Diversidade Socioterritorial: experiências acadêmicas nacionais. E ainda, nesta ocasião segundo Martins (2018) firmou-se parcerias em apoio ao projeto da Unitinerante, com diversas instituições e autoridades representativas.

Na Casla também pode-se realizar a “1ª Feira de Sabores e Sementes”, as sementes e produtos coletados nas comunidades, deram-se em períodos anteriores, durante as atividades de pesquisa do Grupo Interconexões-UEPG. Efetivou-se a comercialização da produção das três comunidades tradicionais ao qual o evento foi ambientado e de agricultores familiares da comunidade Sete Saltos de Cima, vizinha ao quilombo e faxinal que também são foco do projeto de pesquisa e extensão (Figura 02). Além deles comercializarem seus produtos diretamente ao consumidor, nesta ocasião os sujeitos comunitários oportunizaram a exposição de saberes-fazeres (Foto 08) através das oficinais de práticas culturais com a confecção da canjica com cinza no pilão (PEREIRA, 2018) e a confecção de cuia em porongo e a bomba de bambu, posteriormente, com o material pronto os participantes constituíram uma roda de chimarrão (MARTINS, 2018).











Foto -  1ª Feira de Sabores e Sementes da Unitinerante
Fonte: Pereira, 2018.



Dentro da metodologia das oficinas culturais Pereira (2018) enfatiza a importância deste saber-fazer tradicional fundamentada no argumento de Clarindo e Floriani (2014)[9], em que as comunidades constituem-se de territorialidades a partir da sua relação de ocupação coletiva e de subsistência com a terra, dos laços de parentesco e de compadresco, pela sua ancestralidade, pelas suas  tradições simbólico-culturais e pelos rituais e saberes vernaculares, como a reza cantada, as moradias de barro e cobertura de capim (casas de sapê), o uso do pilão, o conhecimento da flora e da fauna e a agricultura de subsistência.




Foto 08 - Sujeitos das comunidades tradicionais socando canjica na cinza
Fonte: Pereira, 2018



O evento no ambiente da Casla de acordo com Martins (2018) contou ainda com diversas apresentações de poesias do Grupo Rios Florestas e Violas do Programa de Pós-Graduação em Meio Ambiente e Desenvolvimento/UFPR. Assim como, a fala da sua presidente Drª. Gladys de Souza, que realizou um discurso sobre a Logomarca da UNITINERANTE. A vinculação a um trem sobre trilhos carrega o lema “Que nos Callen Los Trenes” para conceber a luta dos povos da América Latina como um convite a resistir.





Outro ato que marcou as atividades no Evento na CASLA foi a assinatura da instalação do "Projeto Unitinerante: Universidade Itinerante dos Direitos Humanos e da Natureza, pela Paz e pelo Bem Viver" por parte de diversas autoridades do poder público, de universidades e organizações sociais (figura abaixo). A solenidade de assinaturas contou com o Prof. Dr. Ricardo Marcelo Fonseca (Reitor da UFPR), Dr. Mario Cândido de Athayde (SETI-PR), do Deputado Estadual Dep. Estadual Péricles Holleben de Mello (ALEP), Dr. Olympio de Sá Sottomaior Neto (Ministério Público do Paraná), de Pró-reitores da UEL, UEM, UNICENTRO, UNIOESTE, Prof. Dr. Nilceu Jacob Deitos (Fundação Araucária), professores da UNIJUí, UNESC, ASIAKG, If'pr-Paranaguá, Dra. Gladys Souza Sanchez (CASLA), Profa. Dra. Marilisa do Rocio Oliveira (Proex, UEPG), Prof. Dr. Nicolas Floriani (UEPG), Prof. Hermes Silva Leão (Presidente APP-Sindicato PR), Prof. Dr. Nilceu Jacob Deitos (Fundação Araucária), Prof. Dr. Daniel Cenci (UNIJUÍ), Profa. Dra. Irene Carniatto (UNIOESTE), Prof. Dr. Geraldo Milioli (UNESC), Prof. Dr. Antonio Haliski (IFPR - Paranaguá), Prof. Dr. Ancelmo Schörner (UNICENTRO - Irati), Dr. Olympio de Sá Sottomaior Neto (Ministério Público do Paraná), Dra. Ivete Caribe (CASLA-Jur.), Dr. Fernando Redede Rodrigues (Núcleo Especializado da Infância e Juventude), Dra. Carolina Balbinot (Defensoria Pública Federal), Prof. Ualid Rabah - Diretor de Relações Institucionais - Federação Árabe Palestina do Brasil, Dra. Tatyana S. Friedrich (Projeto Refúgio, Migrações e Hospitalidade - UFPR), Dra. Isabel Kugler Mendes (Presidente Conselho da Comunidade - Curitiba), Dr. Luis González (Comisión de Prevención de la Tortura Misiones, Argentina), Profa. Dra. Joseli Maria Silva (UEPG), Dra. Elizabete Subtil de Oliveira (Coord. do Conselho da Comunidade  Curitiba), Prof. Dr. Leandro Franklin Gorsdorf (UFPR), Profa. Dra. Mara Solange Gomes Dellaroza (Pro-Reitoria de Extensão da UEL), Ms. Taíza Lewitski  (MASA, Benzedeiras), Cacique Irineu Rodrigues - Pontal do Paraná, Faxinalense Acir Tulio - Marmeleiro de Baixo (IN MEMORIAM), Quilombola Arildo Portela - Palmital dos Pretos, Caiçara Conceição Vieira Ramos - Pontal do Paraná, Ms. Ronir Fátima Rodrigues  (Interconexões, UEPG), Dra. Gioconda Mongelós (CASLA), Márcio Kokoj - Arpinsul - Comunidade Indígena Kaingang de Mangueirinha - PR, Suzy Gakoj Tomaz - Comunidade, Indígena Kaingang de Nova Paranheiras, Rio das Cobras, Michele Santos da Silva - Mundurucus Amazônia, Belarmina Luiz Paraná - Presidente das Mulheres Indígenas do Paraná (In Memorian), Ambrósio Luiz Paraná - Lider de Terra Indígena, Manguerinha, Paraná, Cacique Carlos Santos - Aldeia Kakane-Porã-Fazenda Rio Grande, Laércio Araçai e Olívia Araçai - Aldeia Kakane-Porã - Faz. Rio Grande, Leandro dos Santos - Aldeia Kakane-Porã- Faz. Rio Grande, Licínio  Cordeiro - Aldeia Terra Indígena Faxinal de Cândido de Abreu, Prof. Dr. Ezequiel Westphal (IFPR, Paranaguá), Prof. Dr. Antonio Haliski (IFPR-Paranaguá),  Dr. Saint Clair Honorato dos Santos (Ministério Público, PR), Dra. Margit Hauer  (IAP), Dr. Luis Alexandre Gonçalves Cunha (IESOL, UEPG), Grupo de Pesquisa Interconexões (UEPG).








O último ambiente do evento, no período de 24 a 26 de agosto de 2018, deu-se na Comunidade Caiçara de Guaraguaçu, em Pontal do Paraná. Na abertura do evento neste, teve-se a participação de representantes de instituições públicas, o Prefeito e o Presidente do Paraná Turismo, e, docentes, Prof. Dr. Antônio Haliski/IFPR-Litoral.  Ainda, de acordo com Martins (2018) durante a cerimônia ressalta-se a importância da reativação da associação local, já que por um período de dez anos esteve desativada.









Pelo Prof. Dr. Antônio Haliski, coordenador das atividades de pesquisa nesta comunidade, teve-se a apresentação do selo comunitário, por uma simbologia de autoindentificação caiçara. Esta vai de encontro a valorização de produtos locais como estratégia de fortalecimento e desenvolvimento comunitário. Portanto, a arte do selo, contempla importantes aspectos da cultura caiçara como: as plantas medicinais, antúrios e as cattleyas. Também a apresentação artística Fandango com o instrumento rabeca pelo Mestre Aoreleo Domingues.


Oficinas participativas foram ofertadas, como a de bambu artesanal (Foto 09) - por Wilson Rubens/Instituto de Permacultura Ecovia São Miguel -, e a de fibras de bananeira. Ambas potencializaram o uso de materiais locais, e, a diversidade de adereços e peças que podem ser feitas com uma única matéria prima.








Fotos 09 e 10 – Oficina de bambu e Visita Guiada ao Sambaqui Guaraguaçu
Fonte: Stadler, 2018.

Visitou-se segundo Martins (2018) a aldeia Guarani e ao sambaqui Guaraguçu (Foto 10), vizinhos a esta comunidade, uma visita guiada. Além da contemplação no sopé do sambaqui[10], pode-se observar o remanescente de um forno de cal, utilizado na década de 1960 para a extração de material dos sambaquis e fabricação de cal para a pavimentação de rodovias. Outra visita guiada deu-se pela caiçara Srª Tereza Sales Bitencourt, pela sua propriedade, as margens do rio Guaraguaçu. Sua fala expôs o resgate de memórias relacionadas as práticas do pai com as espécies de plantas nativas e seus benefícios medicinais. O encerramento do evento contemplou o café caiçara na casa da Srª Conceição Ramos Constante com o típico bolinho de banana.

Portanto, cabe ainda, o apontamento de Stadler (2018) que o mais importante destes dias de evento acadêmico-comunitário nas três comunidades tradicionais – Faxinal, Quilombo e Caiçara –, as vivências das práticas cotidianas e festivas em torno da religião, alimentação, economia, cultura em geral possibilitou a percepção de outros significados e abordagens para temáticas que perpassam, entrecruzam tais grupos étnicos paranaenses. E mais do que isso, conhecer os espaços pelos sujeitos sociais que de fato constroem suas espacialidades. O evento permite valorizar a prática de campo e a metodologia da observação-participante, da pesquisa-ação, tão enriquecedoras das pesquisas. De fato, a Universidade esteve no campo, os sujeitos pesquisadores e estudantes dialogaram com os sujeitos pesquisados e esta aproximação e nivelamento deixa o caminho aberto para outras ocasiões de trocas e saberes tradicionais e acadêmicos para problemáticas sociais que forem surgindo.

Toda a equipe do Grupo de Pesquisa Interconexões-UEPG agradece imensamente a recepção e participação dos sujeitos das comunidades paranaenses de Sete Saltos de Baixo (Ponta Grossa), Palmital dos Pretos (Campo Largo) e Guaraguaçu (Pontal do Paraná).


Por Tanize Tomasi Alves, Pós-Doutoranda-PPG/UEPG
Fábio Martins, Mestrando PPG/UEPG
Cleusi Bobato Stadler, Doutoranda PPG/UEPG
Renato Pereira, Doutorando PPG/UEPG


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[.1]
 [1]
 Projeto Universidade Itinerante dos Direitos Humanos, da Natureza, pela Paz e Bem Viver da Casa Latino-Americana (Casla), uma proposta de atividades acadêmico-comunitária em rede, envolvendo universidades, organizações, movimentos sociais e instituições públicas. Para mais informações ver www.calsa.com.br.
[2] A rede internacional CASLA-CEPIAL (Semeando Novos Rumos – Sembrando Nuevos Senderos) surge a partir do III CEPIAL, em julho de 2012, na cidade de Curitiba, Paraná, Brasil, aproximando organizações sociais, instituições acadêmicas e outras instâncias do poder público, no âmbito de América Latina e Caribe – mas aberta também a outras regiões e continentes – e busca fortalecer o diálogo e ações conjuntas que visem o apoio ao desenvolvimento sustentável e à ampliação da participação democrática e da preservação dos direitos coletivos de sociedades e povos que vivem em situações de vulnerabilidade social (BLOG REDE CASLA-CEPIAL, 2018).
[3] Disciplina optativa ofertada sob coordenação do Prof. Dr. Nicolas Floriani e pelos Pós-Doutorandos Profª. Drª. Tanize Tomasi Alves e Prof. Dr. Antônio Márcio Haliski pelo Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Estadual de Ponta Grossa.
[4]  GOFFMAN, Erving. Os quadros da experiência social: uma perspectiva de análise. Petrópolis: Vozes, 2012.
[5] THIOLLENT, Michel. Metodologia da pesquisa-ação. São Paulo: Cortez,1985.
[6] ALTIERI, Miguel Agroecologia: a dinâmica produtiva da agricultura sustentável. 4ed. Porto Alegre: UFRGS, 1998.
[7] Relatório de campo como requisito final para a obtenção da aprovação na disciplina de Saberes Geoecológicos Tradicionais e Diversidade Socioterritorial, do Programa de Pós-Graduação em Geografia da UEPG, sob a responsabilidade do Prof. Dr. Nicolas Floriani, Profª. Drª. Tanize Tomasi Alves e Prof. Dr. Antônio Márcio Haliski.
[8] O banco de sementes constitui-se em uma das etapas e resultados do Projeto de Pesquisa Territorialidades Tradicionais às “Territorializações da Agroecologia: Saberes, Práticas e Políticas de Natureza em Comunidades Rurais Tradicionais do Paraná (Chamada Universal MCTI/CNPq nº 01/2016).

[9] CLARINDO, Maximillian Ferreira; FLORIANI, Nicolas. As particularidades da reprodução do patrimônio cultural da comunidade quilombola de Palmital dos Pretos, Campo Largo – PR.  Terr@Plural, Ponta Grossa, v.8, n.2, p. 423-443, jul/dez. 2014.
[10] Tais sítios podem se originar de diferentes formas/funções de ocupações, alguns concentram estígios de habitação e outros de cemitérios. A riqueza dos sambaquis no litoral do sul brasileiro apresenta uma ampla riqueza de vestígios histórico-culturais e somente no litoral paranaense possui 322 sítios catalogados cabendo ressaltar que as comunidades ajudam muito em sua preservação.